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Notícias e Atualidades Capoeira Publicações e Artigos

A Ditadura na (DE)FORMAÇÃO do Capoeira PDF
 
Escrito por: Mestre Jean Pangolin,em:29-03-2006 20:45
Acessos: 1264    
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Mestre Jean Pangolin, Mestre Cassio,Contramestre Strong e Professor LoupDiscutir ensino / aprendizagem em qualquer área já se constitui numa tarefa difícil e arriscada pela gama de informações que o mundo moderno dispõe e por interlocuções com teorias pedagógicas contraditórias e às vezes até confusas. Agora imaginemos esse diálogo tomando como base uma arte com pouco mais de 400 anos, que a mais ou menos 100 anos atrás estava prevista no código penal da república como crime e hoje desponta no mundo inteiro como fenômeno de formação humana para cidadania...  Complicado! Mas esse será o nosso desafio nesse momento, discutir o processo de formação de capoeiristas a partir de interlocuções com algumas teorias pedagógicas de formação humana.
 
            Para problematizar o tema, tomaremos como referencia o processo de formação dos capoeiristas na atualidade nos grupos e associações de capoeira, pois acreditamos que desta forma poderemos dar conta de compreender alguns mecanismos de ingerência do modo de produção na capoeira e ainda garantir uma analise mais fiel das relações de ensino/aprendizagem nessa área.
 
Títulos, graduações e poder
 
             A partir da observação dos grupos de capoeira podemos perceber que muitos funcionam estruturados numa forte cadeia hierárquica, que atribui direitos e deveres aos praticantes, mediante seu estagio (graduação em capoeira), levando-se em conta sua experiência na arte, seu tempo de pratica e principalmente sua capacidade docente. Os membros desses grupos são preparados desde o começo para se tornarem mestres de capoeira, cantando, tocando, jogando e etc...  Seguindo essa lógica, existe um sistema de graduação que serve para mensurar o nível do capoeira a partir dos requisitos já citados, portanto ser capoeirista hoje significa prioritariamente estar a serviço desse modelo de formação que vive da farsa ou ingênua consciência da tradição de respeito ao mais antigo, que fortalece o poder do mais velho diante do mais novo, como forma de subjugá-lo, sendo assim, cria-se o imaginário de que quanto mais velho for, mais pessoas terá para mandar e mais inquestionável ficará. 
 
              Fica fácil compreender o mundo da capoeira na atualidade se pensarmos num quartel militar em que os mais novos sofrem com as ordens dos mais antigos e de maior patente, sonhando em se tornar mais velhos, pelo simples fato de poder retribuir tudo que passaram negativamente, despejando todo autoritarismo possível na relação com os mais novos que chegam. Paulo Freire já nos advertia em sua obra sobre o fato de que todo oprimido traz dentro de si, sendo gestado o opressor, e que a nossa luta pela liberdade é justamente sair das sombras e marcas de nossos opressores.
 
A formação docente
 
            Os níveis de graduação hoje estão divididos, na maioria dos grupos de capoeira, em fase de aluno, Formado, Professor, Contramestre e Mestre, sendo requisito básico para as trocas de estágios mais altos, a capacidade docente, ou seja, o nível do “trabalho” de capoeira, que para os adeptos dessa arte significa a quantidade de alunos que possuem ligados a ele, e o tempo que estes permanecem “ligados” a capoeira, toques, cantos e jogos...  Portanto se alguém quiser seguir praticando sem ter alunos, logo será “taxado” de mau capoeirista por seu grupo e pela comunidade.  A desculpa que alguns mestres usam e que só se aprende capoeira ensinando, hora, se compreendermos a relação de ensino/aprendizagem como um via de mão dupla, facilmente perceberemos o equívoco dos mestres, pois mesmo sem ministrar aulas, um capoeira aprende na própria relação com os outros, sendo o ato de estar como professor, apenas mais uma forma de aprender.
 
             Um outro ponto relevante nessa discussão e o fato de que a maioria dos Mestres vive financeiramente também da renda gerada por seus alunos que estão dando aulas, ou seja, cada novo professor funcionará como mais um “empregado” da engrenagem de lucro dos grupos, servindo de fonte de lucro para o Mestre, que cobra percentuais de participação na receita de seus alunos/professores para que possam permanecer ligados a este ser “iluminado” de sabedoria, o Mestre.
 
              Lamentavelmente, esta e só uma pequena mostra de ingerência do modo de produção capitalista no mundo da capoeira, pois inúmeras são as outras maneiras de mercadorização da capoeiragem na atualidade, estruturada por grupos e instituições afins que trabalham na lógica de macdonaldização da capoeira, com franquias, marcas, métodos enlatados e principalmente com toda uma sistematização sub-serviente ao lucro. Nessa lógica pouco importa o aprender fazendo, a herança “conflitiva” e “libertadora” da capoeira, a alegria do jogo, o berimbau bem tocado ou as lágrimas de um capoeira ao cantar uma ladainha, contudo a importância desses aspectos poderá ampliar rapidamente, basta engaiolar tudo num DVD, CD ou em alguma outra forma encaixotada para ser vendida nos mercados e bancas de revista da esquina.
 
            Às vezes fico me perguntando: como seria a capoeira sem os livros de Frederico Abreu? Sem os filmes de Jair Moura? Sem a sabedoria de Mestre Decanio? E tantos outros que escolheram continuar na capoeira sem seguir a lógica de ter grupo, formar “trabalhos”...   Com certeza a nossa capoeira perderia muito, pois deixaríamos de aprender com as alternativas pedagógicas deste exército de “professores informais” que fizeram a opção de ensinar ao “grupo da humanidade” que capoeira se aprende capoeirando e que ninguém escapa a educação, pois ela está tanto nas academias de capoeira, como nas rodas de rua, nos livros, nos filmes ou numa simples conversa de fim de tarde com Decanio na praia de Tubarão.
 
           Quero deixa claro que este trabalho não tem intuito de resolver o problema nem de firmar-se como verdade absoluta, mas propor uma reflexão objetiva sobre a formação de capoeiras, afirmando que não temos nenhuma pretensão profética apocalíptica das instituições de capoeira. Queremos e dialogar com alternativas de participação no mundo da capoeiragem que possam contribuir de diferentes formas para o crescimento da mesma com critica, autonomia e criatividade.
 
           Precisamos reavaliar os currículos de formação, os métodos de ensino e principalmente um sistema de graduação atual, que este pautado na hierarquização burocrática da capoeira voltada para o lucro.
 
           Por fim finalizo dizendo que esses pensamentos partiram de um individuo que faz parte de um grupo, segue um sistema de graduação, que vivenciou alguns dos equívocos de formação já citados e que esta inconformado e com pouca tolerância para continuar de maneira passiva e submissa fortalecendo um sistema que esta destruindo a capoeira na sua “matriz”, esterilizando-a e transformando seus representantes em reprodutores dos ditames do capital.
 

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Publicado em: :Capoeira ,PUBLICAÇÕES E ARTIGOS - Publicações e Artigos da capoeira
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Comentários(8)RSS feed dos comentários
Postado por: Visitante, em: 11-05-2006 16:54, IP 201.50.20.14, Visitante
1. Shion
Olá! O texto reflete uma boa parte da realidade. 
 
Dentre os muitos pontos para se comentar, fico com a tal hierarquia na graduação.  
 
Um erro crasso q encontro na capoeira é esse show de cores q existem nas centenas de grupos espalhados por todo o mundo. Na minha singela opinião, deveria haver um padrão na escala da graduação de um capoeira. Isso demonstraria unidade ( algo ñ muito comum entre os grupos distintos ) e organização.  
 
Claro q alguns podem alegar "Cada grupo tem uma filosofia e uma forma de ensinar a capoeira"... Isso pode até ser real, mas acontece q deve haver um limite! Afinal, capoeira é capoeira e grupo algum possui a chave para modificar a essência da arte! 
 
Vc pode manter, sem problemas, uma filosofia solidificada em um grupo com um sistema de cores padronizado, por exemplo. Isso ñ interfere, sobremaneira, no desempenho das atividades. 
 
Essa possibilidade da liberdade em escolher cores e níves da graduação é o q fomenta o individualismo, competições ñ saudáveis e um orgulho mesquinho. Basta atentar para a realidade. Ela por si só já decreta e fundamenta. 
 
O iniciante realmente é um sofredor quando colocado no sentido do texto. E é algo incrivelmente contraditório. O aluno iniciante deve permanecer motivado! Chega um dito graduado e "baixa o sarrafo" no coitado na esperança de demonstrar seu belíssimo jogo de capoeira experiente e bamba!Jogo que, curiosamente, só aparece quando este tal graduado encontra um iniciante na roda... Mal sabe ele q está assinando um atestado de burrice e incapacidade de absorção dos reais intuitos do praticar capoeira... 
 
Diante disso, acho que deveria haver uma re-estruturação em todo o universo capoeirístico. Fazer uma varredura para excluir boa parte dos q sujam a imagem da arte capoeira. E ñ é uma ilusão ou sonho impossível, basta uma iniciativa mais própria e salutar. Mais ação e menos omissão! Organização! 
 
Então, parabenizo a sua ação escrevendo este texto e q o mesmo cause uma discussão produtiva, permanente e significativa!  
 
Abraços, colega velho! 
 
 
Shion
 
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Postado por: Visitante, em: 21-04-2006 13:16, IP 201.50.28.69, Visitante
2. JEAN PANGOLIN
QUERO DIALOGAR COM VOCES SOBRE ESSAS LOUCURAS QUE ESCREVO,portanto comentem por favor.....rsrsrsrsrs
 
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Postado por: rosanateixeira, em: 20-04-2006 16:23, IP 201.8.75.168, Visitante
3. Evolução...
Parabéns mestre vc nem imagina como esta contribuindo p minha formação, tanto academica como capoeiristica. Obrigada!!
 
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Postado por: Visitante, em: 10-04-2006 03:39, IP 201.32.210.216, Visitante
4. É bom se indignar
Abraços do colega Acúrsio.
 
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Postado por: Visitante, em: 10-04-2006 03:38, IP 201.32.210.216, Visitante
5. É bom se indignar!
Na década de 70, no auge da ditadura militar, era obrigatória nas escola a leitura do livro Pollyanna que trazia no seu contexto uma lição de conformismo exaltada no seu "jogo do contente" em que ela se dizia contente com qualquer que fosse a situação, pois poderia ser pior.Isto interessava aos detentores do poder. A atitude do mestre Jean Pangolim é totalmente oposta à citada, pois ele se insurge,se mostra insatisfeito com uma hierarquia realmente sem sentido no mundo da capoeira. Ele que teria todo o interesse em perdurar esta situação, afinal, agora é que como mestre poderia começara fazer seus "seguidores". Esta atitude de coragem de desafiar os dogmas e propor mudanças olhando para o seu próprio umbigo é característica dos grandes. Sem intenção, esta atitude do mestre irá com certeza angariar seguidores, que serão tratados, sem sombra de dúvidas com o respeito merecido por todos aqueles que nos respeitam, não "aos mais velhos" como é de praxe se usar na nossa sociedade. parabéns Jean;atitude de mestre...
 
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Postado por: Visitante, em: 05-04-2006 17:09, IP 200.199.61.199, Visitante
6. Jean Pangolin
rsrsrsrs ..... Era disso que comentava no texto....... O capoeira foi alijado de sua capacidade reflexiva,nao conseguindo hoje ver alem de seu umbigo(grupo),e nem percebe que esta sendo ingrenagem da maquina que o destroi paulatinaMENTE....// 
NAO QUERO TROCAR DE GRUPO.... QUERO TROCAR DE SISTEMA...rsrsrs 
 
Abraços cordiais
 
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Postado por: Visitante, em: 04-04-2006 20:29, IP 200.149.51.226, Visitante
7. capo ou capi?
di certo irmão o sistema sempre foi visto como opressor, mais quem o criou quem o faz assim, entende, no seu grupo concerteza não são capoeristas mais sim capitalistas, emtão saia e procure o caminho certo o raízes do brasil um centro cultural de capoeira, um abraço e boa sorte!
 
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Postado por: Visitante, em: 29-03-2006 21:40, IP 201.34.31.106, Visitante
8. ...
:zzz :upset
 
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