O sol bateu-lhe de rijo no rosto escuro, iluminando-lhe as feições. Era de fato, alto. O rosto oval.
Os olhos fundos escondidos numa testa saliente. Nariz chato. Carapinha rala quase careca. E um bigode pequeno, ralo, em forma de triângulo sobre os lábios grossos. Mas no conjunto era simpático.
O jornalista narra a forma como Bimba se prepara para jogar, enfatizando a aura de respeito que envolvia o famoso mestre. Uma disputa de versos antecede o confronto na roda de Capoeira.
"Quando Bimba entrou no círculo os berimbaus começaram a ensaiar uns toques. E a multidão que enchia o terreiro aplaudia freneticamente o seu ídolo.
Nisso, um crioulo possante entrou no círculo, aceitando o desafio. E o povo comentou a coragem daquele homem que ia lutar com Bimba. Porque entrar numa luta com Bimba sem ser convidado por ele é procurar encrenca. Mesmo sendo mera demonstração.
Porque ele é o rei da Capoeira. Os berimbaus ensaiaram um toque e um dos homens perguntou:
- Qual é o toque? - São Bento Grande Repicado, Santa Maria, Ave Maria, Benguela, Cavalaria,
Calambolô, Tira-de-lá-bota-cá, Idalina, ou Conceição da Praia? 'Bimba pensou rapidamente e disse:
- Toque Amazonas e depois Benguela.
'Os berimbaus começaram a tocar. O crioulo aproximou-se e mestre Bimba apertou-lhe a mão.
E o povo começou a acompanhar o tin-tin-tin dos berimbaus, batendo palmas.
Bimba balanceou o corpo e cantou:
No dia que eu amanheço
Dentro de Itabaianinha
Homem não monta cavalo
Nem mulher deita galinha
As freiras que estão rezando
Se esquecem da ladainha
'Mas o crioulo não ficou atrás e cantou, negaceando o corpo no compasso dos berimbaus. A iúna é mandingueira
Quando está no bebedor
Foi sabida e é ligeira
Mas capoeira matou
'Palmas festejaram o repente do crioulo. Porém, Bimba não deu tréguas à vitória do outro. E respondeu:
Oração de braço forte
Oração de São Mateus
Pro cemitério vão os ossos
Os seus ossos, não os meus
'Novamente o povo aplaudiu e cantou o estribilho da Capoeira:
Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um...
'O crioulo, entretanto, não deixou cair a quadra de mestre Bimba e replicou:
E eu nasci no sábado No domingo me criei E na segunda-feira A Capoeira joguei'A multidão deu vivas e bateu palmas para os dois lutadores no centro do círculo.
Uma preta comentou:
- Bom menino! Se é bom na briga como é no canto, boa parada para Bimba.
Começa então a disputa na roda e Ramagem Badaró conta com detalhes até o momento final:
"Os dois lutadores negaceavam os corpos ao som da música dos berimbaus. Um defronte do outro.
Olhando-se dentro dos olhos, se estudando mutuamente. O crioulo foi o primeiro a começar.
Fazendo algumas fintas, procurando descobrir as partes fracas do adversário.
E mestre Bimba aparentemente deixava-se cair nas ciladas do outro. O crioulo foi começando a tomar gosto e abrindo mais a própria guarda, concentrado no ataque.
A multidão no terreiro da Roça do Lobo, continuava acompanhando com as mãos o tin-tin-tin dos berimbaus. E a cantar em coro o estribilho da Capoeira:
Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um...
'Enquanto isso os lutadores continuavam negaceando os corpos, procurando descobrir os pontos fracos do adversário.
'De repente, pararam de súbito. E ficaram mudos de atenção, apreciando o ataque.
O crioulo avançou rápido, levantou uma perna e deu uma meia-lua-armada pela direita de Bimba.
Porém, não deu resultado, porque Bimba foi mais rápido. Deixou-se cair na guarda, enquanto tentava puxar o adversário numa rasteira.
Mas, o crioulo também era ligeiro e livrou-se do golpe com um aú pela esquerda. Bimba insistiu, tornando a atacá-lo. Tentando pegá-lo numa cabeçada presa. Porém o crioulo contra-atacou com uma calcanheira violentíssima. Entretanto Bimba livrou-se agilmente com um formidável pulo mortal.
'Os berimbaus tocavam com mais frenesi. Demonstrando a excitação nervosa dos tocadores.
Também as palmas de acompanhamento diminuíram muito, quase cessando.
'Enquanto isso a assistência completamente em suspenso, apreciava a luta nos seus mínimos detalhes.
'Bimba notou que tinha bom adversário. O crioulo era bom de verdade. Manhoso, ágil e corajoso.
O crioulo começou a se afastar de Bimba como se fosse dar-lhe as costas numa fuga. Bimba percebeu de relance o truque do adversário e ficou em guarda. Os músculos completamente controlados, prontos
para aproveitar aquela oportunidade.
Como ele esperava, o crioulo deu-lhe completamente as costas, como se fugisse da luta. Esperando que ele caísse no velho truque da Capoeira e mergulhasse num arpão de cabeça, dando-lhe a oportunidade
de contra-atacar com um mortífero arpão de joelho.
Mestre Bimba, que já previra o golpe, defendeu-se com uma negativa. Puxando ao mesmo tempo a única perna do crioulo apoiada no chão, com uma violenta rasteira. Pegado de surpresa, o crioulo perdeu o
equilíbrio, subiu e desabou no terreiro.
Uma gritaria retumbante festejou a sagacidade de Bimba. Todo mundo ficou excitado, menos mestre Bimba.
'O capoeirista caído, levantou-se com a mesma rapidez com que caíra. Porém, estava raivoso, com o sangue fervendo nas veias. Danado de raiva e meio descontrolado.
E afastou-se de Bimba, sempre negaceando o corpo, procurando desanuviar a cabeça.
A assistência gritava e batia palmas acompanhando o tin-tin-tin nervoso da orquestra dos berimbaus e o xiquexique dos chocalhos de vime, cantando sempre o estribilho da capoeira:
Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um...
'Nesse instante o crioulo voltou novamente para o centro do círculo. E avançou para Bimba tentando pegá-lo numa vingativa pela esquerda. Não acertou e tomou uma vaia.
O crioulo se descontrolou e avançou louco de raiva. Tentou apanhar Bimba com um golpe de cotovelo e um sopapo galopante. Mas Bimba não se deixava alcançar.
Continuava negaceando o corpo, sempre fintando, por meio de rápidas escapadas. A multidão delirava.
Isso, entretanto, lhe distraiu a atenção.
Fazendo com que relaxasse a vigilância da sua guarda. E o crioulo soube tirar partido desse descuido.
Aproximou-se veloz, levantou a perna e deu-lhe uma bênção em pleno peito.
Mestre Bimba pressentiu o golpe e tentou livrar-se.
Foi ligeiro. Mas não o suficiente para se livrar completamente do golpe.
O peito lhe doeu e a sua vaidade também. Porque as palmas do público festejavam o crioulo.
'Bimba não deu tréguas à vitória do outro.
Avançou para o crioulo fingindo ir dar um balão açoitado. Depois, ensaiou uma palma e levantou a perna como se fosse dar uma bênção. O crioulo ficou todo confuso com a rapidez e a sucessão dos golpes.
Pensou que aquele último golpe era o verdadeiro ataque que Bimba queria fazer e procurou defender-se caindo numa rasteira.
Viu o seu erro e tentou derrubar Bimba com uma encruzilhada. Também errou e mestre Bimba dominou-o com um tronco de pescoço, antes que ele pudesse livrar-se num balão.
Tinha vencido a luta. O povo invadiu o terreiro aplaudindo o rei da Capoeira. Bimba abraçou o adversário.
E o crioulo mostrou que era homem mesmo. Cantou:
Santo Antônio pequenino Amansador de burro brabo
Amansai-me em Capoeira com setenta mil diabos
'Bimba gostou do elogio e retribuiu, cantando:
Eu conheci um camarada
Que quando nós andarmos juntos
Não vai haver cemitérios
P'ra caber tantos defuntos
'A multidão tornou a aplaudir e mestre Bimba abraçou o crioulo (...)."
Com sua incursão no terreiro de mestre Bimba, Ramagem Badaró conseguiu sua reportagem e escreveu bonita página sobre a Capoeira desse tempo, mostrando-nos mais uma vez o quanto é solidária a
autêntica manifestação da luta, nessa arte.
Mestre Bimba dedicou-se ao jogo até o final dos seus dias.
Em seus últimos anos de vida, deixou a Bahia e veio para Goiás, atraído pela possibilidade de encontrar o reconhecimento a que fazia jus.
No ano de 1974 mestre Bimba deixou definitivamente o convívio da família, amigos e discípulos e passou a ocupar lugar de destaque na memória da Capoeira.. "
Curiosidades:Mestre Bimba só aceitava na sua academia alunos que tivessem a carteira de trabalho assinada, fossem estudantes ou tivessem alguma ocupação reconhecida.
"Esquenta Banho" era a senha que mestre Bimba dava a seus alunos para um jogo rápido, apressado. A expressão nasceu após as aulas, quando Bimba obrigava os alunos a tomar banho frio, ligeiro, porque a caixa de água era pequena.
Mestre Bimba entregava aos seus discípulos um lenço azul após a conclusão do curso, um lenço vermelho após a primeira especialização e um lenço amarelo após a segunda especialização.
A luta de Bimba que demorou mais tempo durou um minuto e dois segundos.