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A Capoeira e os conflitos da Intervenção Pedagógica PDF
 
Escrito por: Jean Pangolin,em:16-02-2006 20:59
Acessos: 1276    
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A CAPOEIRA E OS CONFLITOS DA INTERVENÇÃO PEDAGÓGICAA capoeira atualmente está enfrentando uma de suas maiores crises de identidade, principalmente no âmbito de atuação escolar, pois pela sua recente inserção e pelos conflitos gerados a partir de um confronto de ideologias que apontam, na maioria das vezes,  toda repressão e sectarismo na estruturação do sistema de ensino brasileiro adotado em nossas escolas.
Vale a pena ressaltar que não podemos perder de vista que a instituição escolar surge para atender uma necessidade da burguesia, reservando-se, na maioria dos casos,  o papel para a mesma de ferramenta mantenedora da estruturação social vigente, que se firmou ao longo dos anos através de símbolos condicionadores para um perfil social forjado para atender os interesses das classes dominantes.
 

A capoeira da escola vive o desafio de a serviço da mesma contrapô-la, pois se mergulharmos a fundo na estruturação de nossa arte, perceberemos que em seu arcabouço ideológico contem o embrião necessário para a ressignificação dos equívocos sociais.
 
A partir deste preâmbulo discutiremos algumas questões relacionadas às ideologias pedagógicas que perpassam pela capoeira. O primeiro ponto desta discursão é o fato de boa parte da comunidade de capoeira está investida de idéias que apontam para a fenomenologia, mesmo sem nunca ter ouvido falar neste nome, ou seja, alguns capoeiristas acreditam numa essência de homem pré-existente, estabelecendo o homem como um elemento forjado pelo contexto, o que inviabiliza uma idéia de homem como sujeito ativo e transformador de seu tempo. Essa idéia citada é facilmente percebida nos discursos que defendem a tradição como a “fórmula” correta para a capoeira, inviabilizando o novo e as readaptações. “Tradição é uma trilha e não um trilho!”. 
 
O marxismo nos aponta uma possibilidade mais interessante, pois propõe uma idéia de homem ativo, que influencia e é influenciado pela sociedade, sofrendo a ação de um conflito de classes que o impulsiona a superação e desencadeamento de novos conflitos.
 
O segundo ponto consiste no fato do equivoco em se confundir imparcialidade com neutralidade, pois toda prática pedagógica é judicativa, ou seja, é impossível não se posicionar diante de um fato, estabelecendo-se sempre um juízo de valor, o que significa que mesmo na omissão estamos sempre nos posicionando quando empreendemos alguma ação pedagógica com a capoeira.
 
O discurso de respeito a diversidade de opiniões, respaldado na teoria democrática, na maioria das vezes fundamenta um erro de ordem catastrófica, pela má interpretação por parte de alguns capoeiristas, pois o respeito não se consiste no fato de se calar uma idéia, omitindo-se uma opinião e sim no reconhecimento da diversidade enquanto possibilidades alternativas.
 
A solução para a maior parte dos conflitos da capoeira institucionalizada está no reconhecimento da diversidade e no desenvolvimento de uma autonomia crítica e criativa, que seja capaz de se posicionar afirmando, contrapondo ou resignificando as idéias propostas. Se o capoeirista não se der conta desse admirável “mundo novo”, que jamais deve excluir o velho (modelos e paradigmas) e sim, quando necessário “superá-lo”, redimensionando e adaptando seus ensinamentos ao contexto atualizado de forma que, quando pertinente e funcional, possamos a partir dos mesmos nos posicionar na reconstrução de novas possibilidades, pois nesta lógica construiremos uma proposta mais saudável para nosso tempo, negando a tendência de cada vez mais nos submetermos as interferências neoliberais e aos paradigmas da aculturação imposta pela minoria dominante. 
 
       

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Última Atualização:: 19-02-2006 20:53

Publicado em: :Capoeira ,PUBLICAÇÕES E ARTIGOS - Publicações e Artigos da capoeira
Keys/Tags: :Capoeira, PUBLICAÇÕES E ARTIGOS - Publicações e Artigos da capoeira, A CAPOEIRA E OS CONFLITOS DA INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA
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Comentários(5)RSS feed dos comentários
Postado por: Visitante, em: 17-02-2006 09:49, IP 201.32.219.6, Visitante
1. Acúrsio Esteves
Muito oportunas as colocações do Mestre Pangolin, herdeiro direto da sensibilidade e da visão de mundo do Mestre Decânio, do qual é discípulo e admirador confesso.  
Dentre várias posições interessantes no texto de Pangolin, me chamou a atenção o seu comentário acerca da tradição, termo que guarda em si equívocos de interpretação quanto a sua importância e função no ambiente das manifestações populares, como a capoeira. 
Apesar de entendermos que a tradição é a base da manutenção das manifestações culturais de uma sociedade e também que seja um dos seus pilares principais de afirmação identitária, alertamos para que, o simples fato de ser antigo ou ser tradicional que reveste uma atitude ou determinado fato não garante “per se” o seu valor sócio-antropológico. Existem coisas antigas que tiveram significado para a sua época que, hoje, estão destituídas deste simbolismo e podem não só perderem o seu significado antigo como ganhar outros propostos por novas concepções.  
Entendemos que tradição não “engessa” as manifestações populares e também não necessariamente nos remete a herança cultural na sua forma primeira, original, (que pode até o ser). Ela funciona como um referencial, um ponto de partida, canal utilizado para a manifestação evoluir cotidianamente e através do qual frequentemente se atribui a elas novas formas legitimadas por seus praticantes (o trabalho do Mestre Bimba é um bom exemplo disso). “Tradição é uma trilha e não um trilho!”.  
Isso pressupõe que a manifestação (no caso a capoeira) tem origem em uma base ancestral que deve ser levada em conta, porém ela se reelabora a partir de novos diálogos, se relacionando com outras manifestações também tradicionais ou emergentes, e em função de novos signos sociais cotidianamente re-significados, mas sem perder o referencial.  
 
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Postado por: Visitante, em: 23-02-2006 00:22, IP 200.185.237.1, Visitante
2. Mestre Baiano
Eu acho que nós é que complicamos os percursos as vezes com Doutorados,Mestrados etc,e esquecemos do educando em processo de formação onde nos dá a condição de tambem aprendermos com ele e dai nos tornarmos um pouco melhor que antes.
 
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Postado por: Visitante, em: 26-02-2006 06:05, IP 200.180.245.33, Visitante
3. anderson
:) gostei mas deu muitas voltas pra dizer que devemos estar aberto para aprendermos com os alunos , gostei
 
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Postado por: Visitante, em: 04-03-2006 04:03, IP 200.164.21.125, Visitante
4. Antonio Bahia
Mestre Jean Pangolin é uma das figuras mais lúcidas da nova capoeira baiana 
e consegui dar movimento as idéias pedagógicas sem negar a tradição,isso é um claro exemplo do que significa cair na negativa e voltar para o jogo com brilhantismo e destreza dos grandes mestres. 
Pensar a capoeira pedagogicamente não é destruir a tradição, mas recriá-la como o próprio jogo recria o movimento ganhando significado em forma de gesto, e essa é a função do mestre pensar sempre em novas possibilidades de jogar para que cada rasteira signifique um novo aú em busca da superação e uma volta para a ginga superarando novos desafios. 
Somente um grande mestre é capaz de tomar posição e defender as suas idéias, pois quem não esta do lado de ninguém fatalmente estará do lado dos mais fortes. 
Parabéns. 
 
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Postado por: Shion, em: 14-05-2006 18:05, IP 201.19.243.226, Visitante
5. Shion
Alguns capoeiristas se sentem bem num mundinho criado por eles mesmos. Um lugar bom, agradável, totalmente favorável aos seus atos e omissões. Pq sair desse mundo? É bem mais fácil atirar a pedra e ficar protegido nesse universo.  
 
A informação trás esclarecimentos e mais dúvidas. Completando um interessante ciclo: quanto mais conhecimento, mais vontade de aprender e sanar questionamentos. 
 
A ignorância serve de alicerce para muitos e isso trás tranquilidade, de alguma forma. Como me preocupar sobre algo q ñ está "martelando" em minha mente? E é justamente esse efeito q o conhecimento trás: quanto mais se sabe, mas "indignado" o sujeito bem informado fica.  
 
Os capoeiristas devem se conhecer, primeiramente, dentro do próprio grupo. Destruir as bases mesquinhas e perceber q ele ñ sabe tão quanto ao companheiro de roda. Esse orgulho tosco e q trás apenas malefícios é o q limita um capoeira. 
 
Aceitar o diferente é passar por alguns limites q, para alguns, parecem intransponíveis. Ñ há como dá às mãos um objetivo mais íntegro e cristalino com essa pequenez enraizada. 
 
Quando se tem uma boa idéia dentro de um grupo, logo vem os votos de má sorte e comentários de ser algo pautado em sonhos e ilusões. "Isso nunca vai ocorrer!"; "Ñ há como mudar! Sempre foi assim!"  
 
"Vamos quebrá-los na roda" parece a frase com ares de comandante q rege boa parte dos nossos camaradas. É impressionante o vazio q se percebe entre alguns camaradas... 
 
São alheios ao mais evidente e simples contato com uma informação q servirá para graduá-lo verdadeiramente! 
 
Mas noto q, paulatinamente, essa realidade estática está se desfazendo.  
 
Façamos por onde! Dando idéias e colocando-as em prática. Cada um ao seu modo. Juntemos os diferentes modos de pensamentos e teremos opções para as resoluções mais intrincadas em tudo q concerne ao mundo arte- ginga! 
 
Abraços, colega velho! 
 
Shion
 
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