CAPOEIRA É CAPOEIRA.
Li na revista Praticando Capoeira nº. 35, na seção Homenagem, um artigo do Sr. Milton Cezar Ribeiro (Miltinho Astronauta), que afirma a existência de capoeiras em São Paulo antes da passagem dos “Filhos de Bimba”, e que Tiririca é uma espécie de Capoeira Primitiva Paulista; afirmações que merecem as seguintes considerações:
A matéria inicia com um fato histórico real, ou seja, a vinda de Mestre Bimba e discípulos a São Paulo para apresentações da Capoeira Regional. E este é um fato histórico, pois se prova sua autenticidade através de resíduos materiais (notícia de jornais da época, cartazes do evento, fotos, etc.). O lamentável nessa matéria é justamente o uso que se faz da figura de Mestre Bimba, dando a entender que um jogador de Tiririca poderia impor uma derrota a ele ou a seus discípulos, e que estes podem ter se esquivado do enfrentamento, “amarelando”.
No passado, por pura ignorância chamava-se de Capoeira a qualquer valentão, arruaceiro, malandro, jogador de pernada ou tiririca; e por ignorância ainda há quem insista nisso.
Geralmente “historiadores”, “pesquisadores” e “folcloristas” querem fazer história citando uns aos outros, sem nunca apresentarem provas do que afirmam, e na referida matéria não se foge à regra. Não há foto de jogo de capoeira nem de alguém até mesmo jogando Tiririca e o autor apresenta uma foto de uma pessoa com apito na boca e vestida para desfile de carnaval. Daí no final diz que “temos que investigar” confessando que não o fez de modo satisfatório. Ora quem tem de pesquisar é quem faz as afirmações, e antes de fazê-las.
O autor diz que “Alguns jovens mestres, com certa freqüência, negam a existência de capoeiras (praticantes, jogadores ou mesmo lutadores) antes da passagem dos “Filhos de Bimba” pela capital paulista”. Ora, podem ter existido ou não. O que importa é se tiveram alguma importância no desenvolvimento da capoeira. Se tiveram, é a importância deles que fornece as provas da existência. Quem os mencionar deve provar isso, o que até agora não foi feito. As provas existentes ainda se referem aos Mestres reconhecidos como pioneiros da Capoeira em São Paulo, como Mestre Suassuna, Pinatti, Paulo Gomes, Brasília, Limão, Jorge Melchiades (em Sorocaba), etc.
O fato da pratica da capoeira ser proibida no código de Posturas não quer dizer que era praticada e sim que os ignorantes chamavam de “capoeira” a todo criminoso, marginal, vagabundo, ou negro insubordinado. Pelo princípio da simetria em Direito, entre os códigos, as províncias copiavam o código da capital do Império E, além disso, para admitirmos que houvesse prática de capoeira em São Paulo, só porque a proibição constava no Código de Posturas, temos de aceitar pacificamente também a acusação de que nossas distintas bisavós foram adulteras só porque constava no código penal o delito de adultério.
A afirmação de que o folclorista Alceu Maynard Araújo praticou “capueira” só conta com sua própria opinião. Mas como podemos saber se o que ele praticou foi capoeira? Se é que ele praticou alguma coisa.
Sem apresentar provas, o Sr. Miltinho Astronauta afirma que Tiririca é uma espécie de Capoeira Primitiva Paulista, e dessa afirmação leviana tira a conseqüência “lógica” de que um praticante de Tiririca da década de 40 (o homenageado no artigo) foi um autêntico capoeirista. Nada opomos às homenagens a pratica da Tiririca e seus praticantes do passado. O absurdo é dizer que Tiririca é Capoeira, pois se Tiririca fosse Capoeira se chamaria Capoeira e não Tiririca. A capoeira é um sistema lógico de técnicas, fundamentos, rituais e procedimentos. Por ser prática especifica e distinta, capoeira não é Tiririca, Pernada, Batuque, Umbigada, Bundada etc.
As opiniões variam, é claro. Por exemplo: Geraldo Filme e Valter Cardoso, sambistas famosos do estado de São Paulo, entre outros mestres de Samba ou de Capoeira afirmam que Tiririca não é Capoeira. O que não varia é o fato provado, real, contra o qual as opiniões nada valem.
Segundo os depoimentos de discípulos de Mestre Bimba (Mestres Itapoan, Nenéu, etc.), o Mestre maior, quando criou a Capoeira Regional acrescentou alguns elementos do Batuque, ou seja, de prática diferente, que não tinham na Capoeira, e nem por isso a Capoeira passou a ser Batuque e Batuque passou a ser Capoeira.
Se admitirmos que alguma prática seja capoeira por ter algum movimento semelhante, temos que admitir o absurdo de que o Mani (luta desenvolvida pelos escravos vindos da África em Cuba), que a luta praticada pelos negros Americanos, e a Ladja, praticada em Martinica também são Capoeira, primitiva ou não...
Daí a origem da Capoeira deixa de ser Brasileira para se reivindicada pelos Americanos, Cubanos, Martinicanos, ou outros folgados de onde os negros escravos desenvolveram formas de danças, de rituais ou de práticas com algumas semelhanças. Por outro lado, dizer que Tiririca é uma espécie de Capoeira primitiva em São Paulo, é sim
desmerecer todo o trabalho e esforços dos Mestres que aqui chegaram na década de 60 e 70 e tanto sofreram ao enfrentar a ignorância e o preconceito contra as coisas ligadas ao negro. Caros mestres, professores e capoeiristas em geral; cuidado! A Capoeira se expandiu pelo mundo e muitos oportunistas querem se projetar escrevendo sobre ela. Tudo bem. Que façam isso sem violentá-la e sem desmerecer seu crédito nacional e internacional, que tanto custou aos seus mestres conquistar.
Wellington Figueredo
Contramestre de Capoeira Mística
Pesquisador da Capoeira e autor do livro “A verdadeira história da Capoeira em Sorocaba”
www.nupep.org capoeiramistica@nupep.org